A gala «Há Fado na Mouraria» aconteceu no dia 1 de Dezembro, num Teatro da Trindade composto, e disponível para ouvir as novas vozes do Fado cantando poemas originais. Aliás, a associação Renovar a Mouraria, propôs-se a desenvolver um banco de letras originais para que poetas ainda sem nome, possam ver as suas palavras cantadas por quem por elas se encantar.
A apresentadora, Diamantina Rodrigues, conhecida pelas lídes televisivas, mas também pela sua incursão há uns anos atrás na música popular portuguesa e posteriormente no Fado, abriu a noite e deu a palavra à representante do Teatro da Trindade, a actriz Cucha Carvalheiro, que relembrou a sua família, tipicamente portuguesa e amante do Fado, como forma de justificar o acolhimento de braços abertos um projeto que visa revitalizar a nossa canção. Subiu ainda a palco, Inês Saraiva, invergando algo que nos fez lembrar uma Severa dos tempos modernos - não fosse o nome do prémio da noite, Maria Severa - para traçar alguns dos objetivos da associação, realçando o esforço de toda uma equipa que rema para o mesmo lado; a conservação de um dos bairros mais lisboetas.
O Júri, constituido por: José Manuel Osório, Helder Moutinho, João Madeira, Luís Penedo, José Pracana, Rui Vieira Nery e Sara Pereira, não teve a terefa propriamente facilitada. Os músicos: Ricardo Parreira, à guitarra portuguesa, Pedro Soares, à viola de Fado e João Penedo, à viola baixo, estiveram ao serviço das vozes que durante mais de uma hora pisaram o palco do Trindade.
As vozes femininas foram esmagadoras, não só na quantidade, como indubitavelmente na qualidade. Começámos com Alice Franco e «Noites de Fado» no Fado Mouraria, logo após a abertura do concurso com o tema instrumental «Lisboa ao Entardecer».
A grande vencedora, Carmo Moniz Pereira, conquistou pela intensidade em interpretar «A Sombra dos Meus desejos» com letra de Maria Manuela Cid. Seguiu-se Cátia Sofia Tuna, de traje simples e dispensando o xaile, apenas de vestido preto, teve um total comprometimento em «Não me Lembro se Chovia». A fadista, que assegurou a letra deste Fado, pautou a atuação pela subtileza no cantar e nos gestos. «O Lado Bom do Pecado», que valeu a Tiago Torres da Silva o prémio de melhor letra, algo que se revelou inesperado não só para o poeta, assim como para os presentes, motivo pelo qual a organização explicou tratar-se de uma menção honrosa. Com uma postura destemida, mas de alegria contida - lembrando um pouco o universo das músicas do mundo - foi assim que Cristina Andrade agarrou o tema, musicado no Fado Velho.
A noite que já ia longa e sempre em ritmo ascendente, ficou algo morna com as atuações de Fernanda Paula em «É Fado à Noite», José Álvaro em «Diz Adeus ao Sol Poente» no Fado Perseguição ou ainda Justino Coelho da Ramada que interpretou «Só as Saudades Ficaram», sem criar grande impacto.
A noite voltaria a subir de interesse com a atuação de Liliana Santos em «Nova Mouraria» no Fado Santa Luzia. Marisa Pinto foi a nona concorrente que levou o Fado Vianinha, colorindo-o com o poema «Teus Olhos». Vencedora do Segundo lugar, Marta Rosa, que veio da Invicta, interpretou no Fado Menor do Porto «Metro» da sua autoria. Arrojada pelo penteado, sofisticada pelo traje , e nem por isso menos fadista, limitou-se a recolher o galardão Maria Severa e sair silenciosamente do palco, sem agradecimentos ou palavras emocionadas. Mónica Fonseca, recuperou no Frado Cravo, o poema «Fado das Sombras». A décima segunda concorrente, Nádia Leirião, que arrecadou o terceiro lugar na competição, interpretou «Aqui Negaste» de José Luís Gordo.
As vozes masculinas voltaram a palco, mas sem o fulgor das femininas, com Nuno Manuel «Ser Poeta» de António Silvestre no Fado Margarida e Nuno Sérgio, o décimo quarto concorrente com »Lábios de Cera», letra da sua autoria no Fado Menor. A noite estaria perto do fim com Sónia Santos, também letrista do poema «Fado Oração», construído no Fado Mouraria Estilizado.
Enquanto se aguardavam os resultados, subiu a palco Nuno Saraiva, o desenhador da Maria Severa, o prémio que cada uma das vencedoras levou para casa, e que teve a construção de vários artifices da Fundação Espírito Santo. Vestido à marinheiro, Nuno, protagonizou um dos momentos mais descontraídos da noite, ironizando com a cinturinha de vespa que idealizou para a sua Severa.
A surpresa da noite, ou talvez não, foi a atuação daquele que ainda hoje é considerado o Príncipe do Fado, Artur Batalha, que ainda teve tempo para dar o ar da sua graça em pequenos apontamentos de humor. Diamantina despiu por instantes o personagem de apresentadora e saltou para o palco, para interpretar três Fados, que mesmo revelando um ou outro deslizes técnicos, deu um colorido muito especial à noite...e se dúvida algum dia houve em relação a Diamantina, temos efetivamente fadista e lançamos aqui o desafio, para quando um segundo disco?
No final da Gala «Há Fado na Mouraria» ficou a promessa de um audio livro a ser lançado em 2011 e que será o retrato de todo o processo, desde as candidaturas, à selecção até á gala final que fez história no Teatro da Trindade e que se espera voltar para o ano com mais sangue novo no Fado e na poesia nacionais.
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